sábado, 27 de setembro de 2008

Como nasceu a poetisa

Comecei a fazer poesia aos 12 anos, mas aos 02 anos aprendi a ler e aos 04 anos gostava de recitar poemas populares que papai me obrigava a decorar.
Papai resolveu se mudar pra cidade pra sua poetisa estudar. Aos 10 anos fui para a escola, mas já sabia escrever até cartas comerciais e fazer as 04 operações aritméticas.
E a taboada? Ora, esta era recitada .
Meu primeiro livro escolar tinha poemas de Olavo Bilac.
Seu estilo alegre, seu ritmo ligeiro, vinha se casar com minha alma de poeta e me instruir na arte incrivel de rimar.
Nos balanços de corda ou em cima das árvores, onde eu gostava de ficar, sempre tinha um rima de Bilac a me acompanhar.
A saude comprometida, criança franzina e doente, só uma coisa me acalentava, os livros, minha paixão...
Mas quando veio o primeiro amor, aí sim, a poetisa se estrapolou.

Sempre amores platônicos, como os boêmios, para poder se inspirar. Nunca romances reais, talvez para não quebrar o encanto dos sonhos ou talvez medo de espantar o poeta...
Apaixonei-me primeiro pelo cantor! Um garoto guitarrista que montou um Conjunto Musical que imitava os Fevers. Ele tambem imitava o Jerry Adriani, mas usava o Cabelo a La Wanderley Cardoso...
Mais tarde ele abriu uma Emissora de Rádio clandestina. Ele era o máximo. A musa perfeita para uma poetisa. Ele foi meu primeiro amor, mas tambem platônico, claro!
Tão platônico que ao mesmo tempo eu achava lindo meu professor de geografia... Talvez não era ele que eu achava lindo, mas a Cultura, a sabedoria...
Ele deixou de ser professor, mas a cultura ficou no meu coração, tanto que cheguei a lecionar em algumas ocasiões.
O garoto da Guitarra ficou durante dez anos me servindo de Musa inspiradora.
Foi pra ele o meu primeiro poema, e tambem o segundo e muitos outros... Nessa época meu poeta preferido já não era Olavo Bilac, mas Manoel Bandeira, Cruz e Souza e outros mais. Sonetos tornou-se meu forte.
O garoto da Guitarra namorou minha melhor amiga, ótimo motivo para uma enxurrada de poemas boêmios, depois fecharam a Rádio dele e o processaram e por isso ele foi embora da cidade, ótimo motivo para uma enxurrada de poemas nostálgicos.
Quando eu fiz 20 anos soube que ele se casou com outra, ótimo motivo para uma enxurrada de poemas mortais. Eu disse pra mim mesma: talvez eu ainda possa fazer poemas pensando nele. Eu precisava muito daquela musa pra não deixar a poetisa morrer. E abusei das lembranças do seu olhar, da sua voz...
Nos encontramos platonicamente na faculdade de Contábeis e nos formamos nessa porcaria de profissão.
Ele desistiu da arte, da música e do rádio. Foi ser contabilista. Mas arte ficou no meu coração.
Talvez não fosse ele que eu amava, mas sim a música, a arte, a comunicação...
Fui trabalhar na Imprensa, como contadora, é claro. Chequei a fazer locução, ser apresentadora de palco de festivais como ele fazia antigamente. Tudo sem emoção. O dono da emissora me contou sem querer que fora ele e a RPC que fechara, anos atras, as emissoras clandestinas do Noroeste.... Nessa época raramente escrevia poemas, e escrevia só por só por escrever. Poemas que eram mentiras. Romances imaginários, já não tinha inspiração. Mas lá, justo na Imprensa, eu com 30 anos arrumei nova musa.
Amor quase platônico. Um novo artista como o garoto da guitarra. Radialista, meio artista, meio político! Ótimo, nasceram poemas patrióticos... Sabia que não ia dar em nada, mas eu precisava, precisava muito de uma musa, para não deixar a poetisa morrer... Talvez não fosse ele que eu amava, mas a Política, o civismo que ele representava, a cidadania... Todo político tem que ser carismático e assim ele era. Quase fingia que me amava só para ganhar meu voto e minha assessoria eficiente.Ele tambem se casou com outra.
E daí? Eu disse pra mim mesma aos prantos: já passei por isso antes. Tudo bem! Quem sabe eu ainda possa fazer poemas pensando nele, só pra poetisa não morrer... E abusei das lembranças do seu abraço para poder escrever...
Mas ele deixou a política... A família imperial de Maringá o perseguiu tanto até ele desanimar. Era um ótimo legislador.
Ele deixou a política, mas a política ficou no meu coração, tanto que aos 36 anos cheguei a concorrer a Vereança pelo PDT de Maringá.
Nessa mesma época começaram os tempos maus.
Não pude me dedicar a minha Campanha política porque o meu maior inspirador, aquele que me ensinou os primeiros versos, os versos da minha infância, meu pai, adoeceu de morte e morreu.
Exatamente um mes antes das eleições ele adoeceu. O único voto certo que eu tinha, alem do meu, era o dele. Não fiz campanha, não acompanhei o resultado das urnas.
E nunca mais fiz poemas e nem política.
Ele era minha musa e eu não sabia. Ele era minha inspiração. Era ele o meu público, meu leitor, meu único fã. Era para ele que eu escrevia e não sabia. Foi ele que inventou a poetisa quando eu tinha quatro anos me obrigando a recitar aqueles dois poemas populares como Batatinha quando Nasce e Sou pequeneninha do Tamanho de um Botão. E quando eu acertava, me aplaudia, me abraçava, beijava, beijava, beijava... Morria meu inspirador. O único que merecia um poema. Pensei em fazer um poema fúnebre para ele mas era muito triste. Ele não gostaria de poemas tristes, não. Fiz muitos poemas pra ele aqui no meu coração. Poemas que se alguem lesse morreria de tamanha emoção, mas nunca ousei escrevê-los, não!
Nunca mais escrevi nada, não sei se foi de tristeza, por falta de novos romances platonicos, ou foi por falta de tempo, pois depois que papai morreu nada mais foi com dantes.
Mais do que eu sofri, mamãe então se acabou, foi definhando derrepente, como uma criança ficou. Fiquei sem pai, sem musa, e com mamãe para cuidar.
Aos 40, eu parei de trabalhar. Olhar para mamãe definhando era o contrário de um poema. Alguem sabe o que é o inverso de um poema? É isso, é ver sua mãe definhar. É o contrário daquilo que se chama inspiração. É a desinspiração. É como pegar um poeta e virá-lo pelo avêsso. Foi o holocausto de uma poetisa. Dez anos de holocausto.
E quando findou era um sentimento pior. De fracasso ou de vitória? De nada, nem vitória, nem fracasso, ou talvez as duas coisas juntas? Não. Era um sentimento novo, nunca experimentado. Nem os poetas conhecem tal sentimento. É como um terráqueo dizer que conhece o vácuo do espaço sideral. Voce flutua sem saber que peso tem seu corpo... Que peso tem a vida? Que peso tem a morte? Que peso tem o amor? Que peso tem os poemas? Que peso tem o futuro? E o passado? Que peso devemos atribuir ao passado? zero?
Fazem apenas 3 meses que mamãe nos deixou.
Deveria fazer um poema fúnebre para ela ? Acho que não.
A poetisa se calou há tanto tempo, acho que não vai renascer.
Talvez a poetisa renasça quando eu encontrar alguem que me ame de fato.
Alguem que me pessa para eu fazer um poema para ele, como papai me pedia.
Alguem que exija de mim um poema como papai exigia.
Alguem que seja um tanto sábio como o meu professor.
Alguem que seja um pouco artista como o garoto da Guitarra.
Alguem que seja um tão patriota como o jovem político.
TALVEZ A POETISA RENASÇA QUANDO VOCE ME AMAR...
Enquanto isso não acontece vou neste Blog lembrar
alguns dos poemas que fiz pros que não souberam me amar...

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Aviso:
Nunca se deixe contagiar pelas lamúrias de um poeta, pois todo poeta tambem tem seu lado insensivel. Todo poeta tambem é frio, egoísta, pois só ama suas musas e pisa naqueles que dele se aproxima e que ele não consegue enxergar, ou não quer enxergar,
como disse-me um psicólogo certa vez:
quem tem amores platonicos e impossiveis como os boêmios e os poetas é porque não quer amar de verdade, foge da realidade, prefere viver só, com suas fantasias, para não ter compromissos.

Um comentário:

Shirley MacRamos disse...

ALGUEM ME ESCREVEU DUVIDANDO QUE EU TENHA APRENDIDO A LER AOS 2 ANOS DE IDADE...
BEM, EU TAMBEM NÃO ME LEMBRO, POIS AS PRIMEIRAS LEMBRANÇAS QUE TENHO DE MIM MESMA QUE SÃO DE TRES ANOS DE IDADE JA ME VEJO COM MEUS LIVROS.
NÃO ME LEMBRO DE MIM, QUANDO NÃO SABIA LER. QUANDO COMECEI A FALAR AS PRIMEIRAS PALAVRAS JA COMECEI TAMBEM A LER.
Foram meus pais e tios quem testemunharam isso, mas meus pais ja morreram, mas meus tios não se cansam de me contar.